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Por Roberto Motta*


O atraso do Brasil e da América Latina


Em 1800 a renda per capita dos Estados Unidos era equivalente à renda do Brasil, e quase o dobro da renda do México. Em 1913 a renda dos Estados Unidos já era equivalente a quatro vezes a renda mexicana e sete vezes a renda brasileira. Esse fato demonstra que a grande diferença econômica entre Brasil e os EUA não é um produto do século XX; ela é resultado dos séculos XVIII e XIX (HABER, 1997, p.1). O estudo da história econômica da América Latina consiste, principalmente, de tentativas de explicar as razões desse atraso.

O Estudo do Desenvolvimento Econômico


O interesse dos economistas pelas causas do crescimento econômico foi um subproduto da Segunda Guerra Mundial, a primeira guerra vencida pelo PIB.

Os Estados Unidos simplesmente produziram mais do que os países do Eixo, permitindo a mobilização de mais soldados e armas no campo de batalha do que era possível aos inimigos. (HABER, 1997, p.22).

Dois fatores limitavam o crescimento econômico dos países do terceiro mundo. O primeiro era a inexistência de um contexto político e social estável, mas flexível, capaz de absorver rápidas mudanças estruturais e resolver os conflitos resultantes, ao mesmo tempo em que incentiva os grupos sociais promotores do crescimento.

Getúlio e Prestes dividem palanque eleitoral em 1954

O segundo fator inibidor eram as políticas das nações desenvolvidas para os países em desenvolvimento. Essas políticas, ainda que introduzissem alguns elementos econômicos e sociais modernos, apresentavam aspectos claramente inibidores, como a imposição de uma situação colonial ou outras limitações das liberdades políticas. O resultado foi que os países em desenvolvimento passaram a dar prioridade aos movimentos de independência política, relegando o crescimento a um segundo plano (KUZNETS, 1973, p. 254).

Independência sem desenvolvimento: Brasil teve
crescimento zero entre 1800 e 1900

O surgimento da Escola da Dependência


A maioria dos estudiosos da história econômica da América Latina seguiu um caminho diferente no estudo do desenvolvimento, embarcando em um projeto de estudos e pesquisas baseado em teorias Neo-Marxistas, que não só abandonava as premissas teóricas da escola econômica de crescimento como também evitava o uso sistemático de dados quantitativos para testar hipóteses explícitas (HARBER, 1997, p.3).

Esse movimento começou na década de 40 e ganhou força nos anos 60, e envolvia a rejeição de dois conceitos fundamentais para a economia de desenvolvimento. O primeiro era que as leis econômicas que governavam as economias desenvolvidas tinham validade também nas economias dos países em desenvolvimento. O segundo era que as relações econômicas entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos sempre geravam benefício mútuo (HIRSCHMAN, 1981).

Segundo a tese formulada de forma independente por Raúl Prebisch e Hans Singer em 1949, existiria uma tendência de degradação dos termos de troca para os países que exportam commodities e importam produtos manufaturados (HIRSCHMAN, 1981, p.15). Essa tendência seria uma consequência do poder dos sindicatos nos países desenvolvidos e do desemprego nos países periféricos. A tese afirmava que, sem um estado fortemente intervencionista nos países periféricos, seria inevitável o favorecimento dos países desenvolvidos.

Uma vez que se observou que a interação entre países ricos e pobres poderia, em algumas circunstâncias, ter a natureza de um jogo de soma zero uma coisa estranha aconteceu (...) rapidamente se tornou atraente dos pontos de vista político e intelectual afirmar que essa era a essência do relacionamento, e que ela tinha a força de uma lei férrea, e se aplicava a todas as fases do contato entre o centro e a periferia. (HIRSCHMAN, 1981, p.18).

Essa visão do desenvolvimento econômico logo resultou no surgimento de várias obras de história econômica latino americana escritas sob o ponto de vista estruturalista, como essa escola passou a ser chamada. Entre elas destacam-se os estudos de Celso Furtado sobre o Brasil e de Aldo Ferrer sobre a Argentina. As origens dessa escola na crítica da economia neoclássica significaram a rejeição aos métodos analíticos e quantitativos usado pelos estudiosos do desenvolvimento econômico (HARBER, 1997, p.8). As ideias estruturalistas sobre as economias latino-americanas não eram vistas como hipóteses a serem testadas, mas como verdades necessárias.

Os estudiosos das economias da América Latina passaram a acreditar, como artigo de fé, que o subdesenvolvimento da região era resultado do próprio capitalismo. A maior parte dos estudiosos dessa escola, que passou a ser conhecida como a Teoria da Dependência, abandonou as análises sistemáticas, baseadas em teoria, como modelo de pesquisa sobre o passado econômico da América Latina (HARBER, 1997, p.9).




Dependência e Marxismo


As ideias da Teoria da Dependência são parte da tradição Marxista do pensamento latino americano.

Mais do que qualquer outra coisa, a perspectiva da dependência reafirma ideias Marxistas sobre o desenvolvimento latino americano que tem uma longa história na região, que permanecem influentes em vários setores, e que provavelmente permanecerão influentes, não importa o que aconteça com a "escola" da dependência (Packenham, 1998, p.7).

A Teoria da Dependência combina as ideias Marxistas de análise de classe com uma crítica estruturalista da teoria internacional do comércio, embora dependência não fosse nem estruturalismo nem Marxismo (HARBER, 1997, p.9). Seu argumento central era a deterioração dos termos de troca ao longo do tempo: o declínio do preço dos produtos primários exportados pela região em relação ao preço das importações vindas dos países industrializados do Atlântico Norte.

Uma segunda fonte de ideias e inspiração para os formuladores da Teoria da Dependência foram os escritos de Lênin sobre o imperialismo (PACKENHAM, 1998, p.8). Segundo Cardoso (1972) "Lênin formulou com simplicidade o que viria a ser o núcleo das análises de dependência: as formas de articulação entre as duas partes de um modo de produção, e a subordinação de um modo de produção a outro" (CARDOSO, 1972, p.4). Lênin antecipou a ideia de uma "anti-nação dento da nação" defendida por Cardoso e todos os outros escritores da dependência.

Esse conceito é crucial à perspectiva da dependência; ele afirma que a solução específica para os problemas interligados de exploração de classe e imperialismo nacional é a derrubada do capitalismo e a instalação do socialismo (PACKENHAM, 1998, p.8).

O arcabouço teórico da dependência passou a ser considerado o modelo mais adequado ao estudo da política, sociedade e economia da América Latina. A Teoria da Dependência se tornou - e continua a ser - o tema dominante dos livros-texto mais usados sobre história latino-americana (EAKIN, 1988).

A teoria da dependência ainda é o tema dominante
nas universidades brasileiras


Os problemas com a Teoria da Dependência


A formulação teórica da dependência deixou sem resposta importantes questões, por exemplo, ao insistir que a única saída para os países periféricos é o socialismo (PACKENHAM, 1998, p.78).


(...) Cardoso insiste que a única alternativa desejável ou aceitável é o socialismo. Ele nada diz sobre a natureza do socialismo, de forma abstrata ou concreta. Abstratamente ele diz apenas que ele é mais "justo" e "igualitário" que o capitalismo (...) (PACKENHAM, 1998, p.78).

Haber (1997) identifica três problemas graves com o modelo de dependência. O primeiro foi o uso de argumentos econômicos improvisados. Um exemplo é a visão dependendista de que o investimento externo direto (foreign direct investment, FDI) causa subdesenvolvimento, pois “descapitaliza” a América Latina, já que o valor dos lucros repatriados excede o valor do investimento original. Esse ponto de vista ignora a demanda criada pelo investimento estrangeiro por insumos domésticos, e o papel dessa demanda na criação de novas indústrias” (...) (HARBER, 1997, p.11).

O segundo problema com a teoria da dependência – e o aspecto que teve o impacto mais negativo e duradouro no campo da história econômica latino americana - foi a rejeição do conceito de que ideias devem ser submetidas à avaliação científica. (HARBER, 1997, p.11). Ao invés de elaborar hipóteses cuidadosamente construídas, e testá-las usando dados coletados sistematicamente, os dependendistas frequentemente faziam afirmações gerais que não eram confirmadas pelas evidências.



Packenham (1998) observa sobre Fernando Henrique Cardoso (1969):

Existem dezenas dessas generalizações transnacionais em Dependência e Desenvolvimento. A maioria delas são, como os exemplos dados, afirmativas simples e descontextualizadas. A maior parte delas, quando aparece no livro, não tem mais solidez ou especificidade do que quando citadas aqui. Elas não são, quase nunca, documentadas ou mesmo exemplificadas. (PACKENHAM, 1998, p.60).

A escola de pesquisa que se desenvolveu a partir daí não deu importância à coleta cuidadosa de dados ou à formulação clara de hipóteses testáveis. Os dependentistas, por razões políticas e ideológicas, frequentemente tinham como objetivo provar que a teoria era correta. “Desta forma, a tradição da dependência inaugurou o uso de regras de evidência e argumentação sem o necessário rigor, que permitiram a formulação de hipóteses de forma implícita e incompleta, o uso de argumentação tautológica e a apresentação seletiva de dados”. (HARBER, 1997, p.11).

O terceiro e mais grave problema da teoria da dependência é que as suas afirmativas centrais eram, em sua maioria, inconsistentes com os fatos (HARBER, 1997, p.12). Isso foi comprovado à medida que os estudiosos transformavam as ideias da dependência em hipóteses falsificáveis e as testavam usando os dados históricos das economias da região. Por exemplo, um exame dos dados de comercio exterior da região no século XIX concluiu que houve, na verdade, uma melhoria nos termos de troca, ao contrário do que dizia a afirmação central da teoria da dependência: a de que a deterioração dos termos de troca era a principal responsável pelo subdesenvolvimento da região (HARBER, 1997, p.12). O peso das evidências leva à conclusão de que nunca houve deterioração a longo prazo dos termos de troca na América Latina, mas apenas movimentos cíclicos, sem nenhuma tendência clara de longo prazo (LEFF, 1982).

O outro dogma da teoria da dependência era a existência de uma burguesia compradora, que controlava um estado fraco que não queria e não podia agir em nome no interesse nacional (HARBER, 1997, p.12). Entretanto, estudiosos da história industrial da região encontraram burguesias nacionais com poder político considerável e espírito desenvolvimentista já no século XIX. Essas elites industriais nacionais convenceram seus governos a estabelecer altas barreiras tarifárias contra fabricantes estrangeiros e a implantar programas de subsídio para apoiar as indústrias nascentes da América Latina. Tudo ao contrário do que afirmava a teoria da dependência.

Conclusão


A hegemonia teórica do modelo de dependência deve ser entendida considerando-se o contexto político dos anos 1960 e 1970. A Teoria da Dependência era um mero reflexo de um questionamento político e filosófico maior do poder político e econômico dos EUA. (HARBER, 1997, p.10).



Ao constatar as inconsistências cada vez mais óbvias entre a teoria e a realidade, os dependentistas reagiram de duas formas. A primeira foi criar uma versão mais complicada da teoria, chamada de desenvolvimento dependente associado, que afirmava que o desenvolvimento poderia ocorrer em um contexto de dependência, admitindo implicitamente que a Teoria da Dependência não conseguia explicar o subdesenvolvimento latino americano (HARBER, 1997, p.13).

A segunda reação foi uma tentativa de reforma da teoria, através de sua aplicação a situações históricas concretas. A grande distância entre os dogmas da Teoria da Dependência e a história real da América Latina impossibilitou os revisionistas de estudarem crescimento econômico; ao invés disso eles focaram seus estudos em questões sociológicas e políticas.

Embora esse trabalho tenha aspectos importantes e válidos, ele tem pouco a dizer sobre as origens do subdesenvolvimento latino americano. (HARBER, 1997, p.14).



REFERÊNCIAS

CARDOSO, F. Notas sobre el Estado Actual de los Estudios sobre la Dependencia. Revista Latinoamericana de Ciencias Sociales, pp. 3-31, 1972.

CARDOSO, F. The Consumption of Dependence Theory in the United States. Latin American Research Review, 12:3, pp. 7-24, 1977.

CARDOSO, F.; FALETTO, E. Dependency and Development in Latin America. University of California Press, 1969.

EAKIN, M. Surveying the Past: Latin American History Textbooks and Readers. Latin American Research Review, Vol. 23, No. 3, pp. 248-257, 1988.

HABER, S. How Latin America Fell Behind: Essays on the Economic Histories of Brazil and Mexico, 1800-1914. Stanford University Press, 1997.

HIRSCHMAN, A. Essays in Trespassing Economics to Politics and Beyond. Cambridge, 1981.

KLÁREN, P. Lost promise: explaining Latin American underdevelopment. Westview Press, 1986.

KUZNETS, S. Modern Economic Growth: Findings and Reflections. The American Economic Review, Vol. 63, n.3, pp. 247-258, 1973.

LEFF, N. Reassessing the Obstacles to Economic Development. Underdevelopment and Development in Brazil, Vol. 2. London, 1982.

MADDISON, A. The World Economy: A Millennial Perspective. OECD Publishing, 2001.

PACKENHAM, R. The Dependency Movement: Scholarship and Politics in Development Studies. Harvard University Press, 1998.

(*Roberto Motta é engenheiro, escritor, empresário e professor. Seus interesses são política, literatura, tecnologia, economia e tudo relacionado com o mar.)
por que há países pobres
Por Roberto Motta*

Por que alguns países são ricos e outros são pobres? A resposta é simples: porque alguns países têm instituições melhores.

O que são instituições? São as regras do jogo em uma sociedade, diz Douglas North em Instituições, Mudança Institucional e Desempenho Econômico. "São as restrições criadas pelo homem que modelam as interações entre os indivíduos".

Roberto Motta
As instituições são aquilo que nos faz parar no sinal vermelho, não jogar lixo na rua e evitar
comportamentos criminosos e ofensivos à sociedade. São as instituições que nos incentivam - ou não - a abrir uma empresa, investir em ações, educar nossos filhos.

Como explicam Daron Acemoglu e James Robinson em Por que as Nações Fracassam: "Os países têm condições diferentes de desenvolvimento econômico porque suas instituições são diferentes, e essas instituições influenciam o funcionamento da economia e os incentivos que motivam as pessoas".

Douglas North diz que a partir do momento em que a evolução de uma sociedade toma determinada direção, a tendência é que continue nessa mesma direção. “Os retornos crescentes gerados por um conjunto inicial de instituições que desestimula atividades produtivas cria organizações e grupos de interesse investidos nas restrições existentes".

Dito de outra forma: é muito mais rentável para um empresário tomar um avião para ir a Brasília fazer lobby do que investir no aumento de produtividade de sua empresa. Pode ser mais rentável - muito mais - abrir um sindicato, uma ONG ou uma associação de classe e começar a coletar contribuições obrigatórias dos filiados ou verbas do governo, do que abrir uma fábrica. A consequência é o que constatamos todos os dias: um Estado e uma política voltados para atender aos interesses dos sindicatos, dos grandes grupos econômicos associados ao Estado e das entidades de classe.

O resultado é uma economia cujo negócio principal é criar entraves às atividades produtivas, e vender soluções para esses entraves. Pense nas inúmeras contribuições, taxas, permissões, inspeções, alvarás e autenticações que se interpõem entre um empreendedor brasileiro e o seu negócio.

O Estado é dominado pelos interesses de um pequeno grupo que reforça as instituições extrativas ao longo do tempo, retirando riqueza da sociedade e concentrando-a nas mãos de poucos. Esse é um processo que independe de ideologia ou da motivação política original dos agentes. Ele explica porquê, independente da cor da sua bandeira ou de suas propostas ideológicas, o comportamento dos partidos políticos ao chegar ao poder na América Latina é mais ou menos o mesmo (com exceção daqueles casos que se revelam tragédias absolutas, como a Venezuela).

É o que o sociólogo alemão Robert Michels chamou de Lei de Ferro da Oligarquia: as revoluções e movimentos radicais acabam tendo como única consequência a troca de uma forma de tirania por outra.

Por que a diferença tão grande entre as instituições políticas dos países Latino-Americanos e as instituições dos países da América do Norte? Como relatam Douglas North e outros autores, os caminhos da evolução da América do Norte e da America Latina foram diferentes desde o início, pois elas herdaram diferentes instituições e modelos mentais dos países colonizadores.

A Revolução Gloriosa de 1688 transformou a política e a economia da Inglaterra, limitando o poder do Rei e transferindo para o Parlamento a capacidade de determinar as instituições econômicas. A Revolução Gloriosa criou a fundação sobre a qual foram construídas as bases de uma sociedade pluralista. O Governo passou a adotar um conjunto de instituições econômicas que incentivavam investimentos, comércio e inovação. A população conquistou importantes direitos políticos e expandiram-se as oportunidades econômicas para todos.

Já a política da Espanha consistia de uma enorme burocracia centralizada “encarregada de uma quantidade sempre crescente de leis e decretos, que ao mesmo tempo legitimizavam a máquina administrativa e determinavam sua direção”. As colônias espanholas na América Latina herdaram do Império Espanhol uma administração burocrática encarregada do controle de cada detalhe da política e da economia. A persistência dos padrões institucionais impostos por Espanha e Portugal continuou a desempenhar um papel fundamental da evolução da política e da mentalidade da América Latina.
O baixo desempenho econômico e social do Brasil é resultado das restrições e incentivos, formais e informais, embutidos nas instituições herdadas da Espanha via Portugal.

Então, da próxima vez que alguém perguntar por que alguns países são ricos e desenvolvidos enquanto outros são pobres, responda citando Douglas North: “os países do terceiro mundo são pobres porque suas instituições recompensam atividades políticas e econômicas improdutivas".

O Brasil é um país pobre, violento, perigoso, sujo e ineficiente porque nossas instituições (nossos hábitos e costumes, nossas leis, nosso burocratas, nossos mecanismos de recompensa e punição e nossas tradições culturais) encorajam atividades que nada produzem, facilitam a prática de crimes, incentivam a proliferação de leis e regras inúteis e fazem da burocracia e da corrupção as maiores indústrias nacionais.

(*Roberto Motta é engenheiro, escritor, empresário e professor. Seus interesses são política, literatura, tecnologia, economia e tudo relacionado com o mar.)
*Por Roberto Motta

Quando você duvidar do poder das ideias de mudar o mundo, olhe essa foto. Ela foi tirada ontem, e mostra a lama de Mariana chegando ao mar.

É a lama dos últimos 12 anos, uma mistura tóxica de metais pesados, corrupção, nepotismo e populismo.

Essa lama é fruto de uma ideia: a de que o Estado foi feito para servir a um pequeno grupo no poder, e tudo o mais que se dane.

Roberto Motta
Segundo essa ideia, agências reguladoras não foram feitas para regular nada. Elas servem para dar
cargos aos amigos, criar dificuldades para os inimigos e vender facilidades a quem puder pagar - e assim fazer caixa para a próxima eleição.

Segundo essa ideia, "sustentabilidade" é uma palavra bonitinha, que deve ser sempre mencionada porque gera votos, mas que não pode atrapalhar os lucrativos negócios da máquina estatal e nem envergonhar os aliados políticos.

Para combater essa lama e evitar que ela polua nossos mares para sempre, adote uma outra ideia: a de que precisamos mudar nossa cultura e nossas instituições.

Leia também: Não esqueça de Mariana! Não esqueça de nossos problemas!

Cada um de nós é responsável por ensinar aos nossos filhos e às próximas gerações os verdadeiros valores: respeito à lei, responsabilidade por seus atos, a importância do aprendizado permanente.

A renovação do país começa por uma nova constituição e pela reformulação, a partir do zero, das nossas instituições principais, incluindo o pacto federativo, congresso, justiça, ministério público, polícia e muitas outras.

Essa é a tarefa mais difícil. Precisamos fazer a cabeça dos juízes, promotores e Ministros do STJ, do TSE e do STF que irão tomar posse em 2045. Eles hoje ainda estão nas escolas secundárias e nas faculdades de direito. É lá que precisamos atuar.

Essa é tarefa para todos nós: confrontar diariamente os doutrinadores disfarçados de professores, e evitar que envenenem a mente de nossos futuros homens públicos.

Não podemos assistir passivos à dieta de lixo que está sendo servida aos nossos filhos.

É esse lixo - glorificação do Estado, vitimização do cidadão, demonização do capitalismo e do empreendedorismo e glamourização da ignorância - que está na base da lama de Mariana.

É esse lixo que envenena peixes e homens.

E isso tem que acabar agora.

(*Roberto Motta é engenheiro, escritor, empresário e professor. Seus interesses são política, literatura, tecnologia, economia e tudo relacionado com o mar. O presente artigo foi publicado originalmente no dia 23/11/15)
Por Roberto Motta*

Caro leitor, o principal problema do país é a desigualdade, sim, mas a desigualdade de poder. A desigualdade "econômica" é mera consequência. Aqui existem pessoas que podem tudo, e outras que não possuem os direitos mais básicos. É essa a desigualdade que importa.

A lei que vale para o cidadão comum não é a mesma lei que vale para um desembargador, um ministro, um deputado, um banqueiro, um milionário ou até mesmo um chefão do tráfico de drogas.

Roberto Motta
Nas aulas para estrangeiros eu explico que no Brasil a lei não funciona para proteger o cidadão. "O que funciona então?", me perguntam. "Relacionamentos", eu respondo. O velho QI: quem indica. Ou o famoso "você sabe com quem está falando?". Vale o poder.

O Brasil está cheio de pessoas que ganham a vida orbitando em volta dos poderosos. Ser amigo de um Pedro Barusco vale mais que uma vida inteira de estudo e trabalho.

Leia também: O Brasil é governado por derrotados

Para o poder tudo é possível. Nosso "Estado de Direito" não resiste à força e à sedução dos poderosos. Tribunais, Congresso, mídia, agências reguladoras e a própria independência dos poderes nada representam diante da força de quem tem as chaves do Estado. Tudo é maleável, influenciável, adiável ao infinito.

Tudo está à venda.

Um mandato eletivo não significa a oportunidade - e a honra - de representar os interesses da sociedade. É apenas um passaporte para o enriquecimento rápido. Um cargo de secretário de estado, por exemplo, não vai para o mais competente, mas para aquele com o melhor esquema de manipulação da máquina pública.

Como diz o sociólogo Gert Hofstede, o poder cria sua própria justificativa. Nada demonstra isso tão bem quanto o juiz que é flagrado desviando dinheiro e é punido com aposentadoria antecipada ganhando 30 mil reais por mês, para o resto da vida.

Essa é a desigualdade que interessa.

Tudo o mais é tolice, mentira, cortina de fumaça.

(*Roberto Motta é engenheiro, escritor, empresário e professor. Seus interesses são política, literatura, tecnologia, economia e tudo relacionado com o mar.)
Por Roberto Motta*

Somos o país das ONGs ambientais. Temos um partido verde, infinitas entidades de proteção ao meio ambiente, órgãos federais, estaduais e municipais, polícias florestais. Tudo que criamos tem que ter a expressão "Sustentabilidade". Temos um processo que leva 2 anos para autorizar a perfuração de um poço de petróleo. Temos TCU, CGU, Ministérios Públicos, TCEs, TCMs, o DNPM.
Agora temos também um dos maiores desastres ambientais do mundo.

Roberto Motta
Para que todos entendam que nosso problema não é falta de leis, decretos, regulamentos, portarias, alvarás, licenças ou fiscais.
Nosso problema é a falta de moral, competência e responsabilidade em quase todos os nossos homens públicos.

Leia também: Não esqueça de mariana! Não esqueça de nossos problemas! 

Pensem nas outras 700 barragens cheias de veneno espalhadas pelo país, nos oleodutos e plataformas, nas usinas nucleares aqui ao nosso lado. A única coisa que nos protegerá de novos desastres é a qualidade das escolhas políticas que faremos.

(*Roberto Motta é engenheiro, escritor, empresário e professor. Seus interesses são política, literatura, tecnologia, economia e tudo relacionado com o mar.)
MBL Vem Pra Rua Revoltados Online
Por Roberto Motta*

Os dois problemas básicos do país são a degeneração institucional e a incompetência do Estado.

São problemas inter-relacionados, mas distintos, que se repetem em todas as esferas do Governo.

A degradação institucional afeta a polícia, o parlamento, as cortes superiores e a Constituição. Somem as garantias que permitem ao cidadão viver com segurança e tranquilidade. O Estado vira uma rede de ajuda mútua, onde os resultados de inquéritos, processos e CPIs são sempre negociados nos bastidores.

É tudo de mentirinha.

Roberto Motta
Já a incapacidade administrativa impede o Estado de cumprir suas funções básicas. É o uso do Governo como ferramenta de enriquecimento. Para se eleger é preciso dinheiro, e a eleição se justifica pelo acesso aos recursos públicos e aos contratos. Em outras palavras: o ministro e o secretário estão ali para fazer caixa, não para administrar a saúde ou os esportes. Esse é um mecanismo que se retroalimenta ao infinito.

Para fazer caixa é preciso que o prefeito reboque o seu carro e engarrafe a cidade com obras faraônicas que o município não conseguirá manter depois. O processo orçamentário é um teatrinho sem sentido, repetido por atores canastrões. Os legisladores são todos representantes de interesses especiais.

É preciso quebrar esse ciclo e inverter essas tendências. É preciso participar do Movimento Brasil Livre, do Vem Pra Rua, do Revoltados Online, da União Pelo Brasil, da Aliança Democrática e de todos os outros movimentos que pedem o impeachment.


É preciso exigir o impeachment.

É preciso exigir, a todo custo, decência e independência nas cortes superiores e nas agências reguladoras. É preciso planejar a privatização de todas as empresas estatais.

É preciso alterar o código penal para que criminosos, incluindo políticos corruptos, fiquem presos por muito tempo.

Precisamos estabelecer em nosso país um verdadeiro Estado de Direito, baseado no respeito à lei e a instituições sólidas.

Precisamos disso para sobreviver.

(*Roberto Motta é engenheiro, escritor, empresário e professor. Seus interesses são política, literatura, tecnologia, economia e tudo relacionado com o mar.)
Por Roberto Motta*

Roberto Motta
Desliga o master chef e senta aqui que eu vou recomendar sete livros. Não são livros fáceis, mas são absolutamente necessários. Não se encaixam em nenhuma ideologia prét-à-porter. Eles propõem ideias novas — em alguns casos, radicalmente novas.

Sabe como é: para mudar o Brasil não basta vontade. Antes de propor respostas é preciso entender quais são as perguntas. Esses são livros sobre perguntas.

Eles valem por um mestrado acadêmico. Sério. Apresentam teorias sobre a desigualdade entre as sociedades e pessoas, sobre os reais objetivos da política e sobre as causas do nosso atraso. Esses são livros que ensinam a raciocinar. Pense neles como uma Bodytech da mente.

Esses livros são parte do meu segredo. Não espalha, ok?


Recomendação da Prof. Carmen Migueles

Cultures and Organizations


Hofstede é um clássico do estudo comparado de culturas que até hoje não foi superado. É para ler saboreando o texto e para ficar de boca aberta com as informações. Entenda porque o problema do Brasil não é desigualdade de renda, mas desigualdade — distância — de poder. Mas atenção: esse livro faz questionamentos sérios, consistentes e bem-fundamentados sobre todas as ideologias. Prepare-se.

Não diga que eu não avisei.

Olha aqui:

“Culturas nacionais são parte do software mental que adquirimos durante os primeiros dez anos de nossas vidas, na família, no ambiente social e na escola, e contém a maior parte dos nossos valores. Culturas organizacionais são adquiridas quando entramos em uma organização como jovens adultos ou adultos, com nossos valores já firmemente estabelecidos, e consistem principalmente de práticas da organização — elas são mais superficiais”.
“Em países com alta Distância de Poder, como o Brasil, superiores e subordinados se consideram existencialmente desiguais, e a hierarquia é baseada nesta desigualdade existencial, com grandes variações salariais entre a base e o topo. As organizações centralizam ao máximo o poder, empregados esperam por ordens, e trabalho manual tem um status muito inferior ao trabalho de escritório. O chefe ideal aos olhos dos subordinados, aquele que os deixa mais confortáveis e pelo qual têm o maior respeito, é o autocrata benevolente. Em países com alta Distância de Poder as relações entre chefe e subordinados são carregadas de emoção”.

Recomendação de Raphael Rotgen

Intelligent Governance for the 21st Century


Um livrinho muito importante — e curto, rápido e gostoso de se ler, totalmente fora da caixa, beirando a incorreção política. Leia para saber que (1) até o regime político da China tem pontos positivos que merecem consideração e que (2) o problema central das democracias ocidentais é combinar uma sociedade de consumo baseada na gratificação imediata com um sistema eleitoral universal. Esse livrinho vai abalar muito do que você sabe, ou acha que sabe, sobre política, gestão pública e representatividade eleitoral. De quebra, ele sugere um novo regime representativo muito fora da caixa para substituir o modelo clássico de democracia republicana (que, geralmente, se transforma em populismo puro).

Olha aqui:

“No Ocidente, a última palavra é dos eleitores, que aceitam se submeter a determinada forma de governo. Mas a chave da boa governança é dissociar a formulação de políticas públicas da ‘vetocracia’. Ao invés de votar considerando apenas seu interesse imediato, ou ser forçado a decifrar a propaganda e os jargões eleitoreiros dos interesses corporativistas, o eleitor deveria ter a chance de escolher entre políticas públicas propostas por entidades cuja missão seja considerar o interesse da sociedade no longo prazo.
Os problemas atuais com governança no Ocidente sugerem que é necessária uma evolução da democracia. Instituições com elementos meritocráticos devem ser estabelecidas como contrapeso aos interesses corporativistas e de curto prazo da cultura política das democracias eleitorais”.

Sugerido por Jairo Nicolau

Patterns of Democracy


Para quem quer entender o que é democracia, o que são sistemas políticos majoritários e de consenso (caso do Brasil), e as diferenças entre presidencialismo e parlamentarismo. Lijphart estuda 30 países considerados democracias consolidadas (não estamos na lista). A leitura é, às vezes, um pouco lenta, mas vale a pena.

Olha aqui:

“Definir democracia como “o governo pelo povo e para o povo” resulta em uma questão fundamental: Quem vai governar, e que interesses devem prevalecer quando os eleitores discordam e têm preferências diferentes ? Uma resposta a esse dilema é: a maioria dos eleitores. Esse é o sistema majoritário de democracia. […] A resposta alternativa é:tantas pessoas quanto possível. Essa é a proposta do modelo da democracia por consenso.
[…] Poderes presidenciais tem três origens. A primeira é a Constituição, que define “poderes reativos”, especialmente o poder de veto presidencial, e “poderes proativos”, como a habilidade de legislar por decreto em certas questões. A segunda fonte de poder é a força e a coesão dos partidos que apoiam o presidente. Por último, presidentes obtém força considerável dos votos diretos que os elegeram — eles podem argumentar que são os únicos funcionários públicos eleitos pelos cidadãos”.

The Great Degeneration


Muito, muito bom
Esse é O LIVRO. Ele resume em poucas páginas, deliciosas de se ler, o que outros livros (por exemplo, o Por Que as Nações Fracassam) levam quatro vezes mais páginas para explicar. Entenda o porque do declínio econômico das democracias ocidentais e, de quebra aprenda, o que precisamos fazer para consertar a nossa.

Olha aqui:

“[…] Nós, humanos, vivemos em uma complexa matriz de instituições. Existe o governo. Existe o mercado. Existe a lei. E existe a sociedade civil. Em um determinado momento essa matriz funcionou maravilhosamente bem, com cada conjunto de instituições completando e reforçando as outras. Isso, acredito, foi a chave do sucesso do Ocidente nos séculos XVIII, XIX e XX. Mas as instituições do nosso tempo estão quebradas.
[…] Países atingem um estado estacionário, como disse Adam Smith, quando suas ‘ leis e instituições’ se degeneram ao ponto dos interesses corporativistas da elite dominarem o processo político e econômico. Esse é o caso em partes importantes do Ocidente de hoje. A dívida pública — explícita e implícita — se tornou uma forma das gerações mais velhas viverem às custas dos jovens e dos que ainda não nasceram. A regulação se tornou disfuncional ao ponto de aumentar a fragilidade do sistema. Advogados, que podem ser revolucionários em uma sociedade dinâmica, se tornam parasitas. E a sociedade civil definha e se torna uma terra de ninguém entre os interesses corporativos e o Estado inchado. Esses são os elementos que caracterizam a Grande Degeneração”.

Livre-se da Teoria da Dependência

How Latin America Fell Behind


Esse livro é um conjunto de artigos de diversos autores falando sobre desenvolvimento econômico no Brasil e no México no século XIX. É um livro imprescindível. Parece um assunto chato, só que não. Esse livro traz uma explicação clara sobre as razões do nosso atraso (spoiler: a culpa é nossa mesmo) e sobre a precariedade intelectual e falsidade metodológica da escola desenvolvimentista (leia-se CEPAL) que criou a fantasiosa “Teoria da Dependência”, que até hoje envenena nossa cultura. Leitura obrigatória.

Olha aqui:

"Logo, muitos estudiosos da América Latina começaram a acreditar, como artigo de fé, que o subdesenvolvimento da região era resultado do próprio capitalismo. Esses estudiosos rejeitaram a tradição neoclássica de análise econômica. Como associavam as poderosas ferramentas analíticas e quantitativas de estudo do crescimento econômico com um conjunto específico de políticas públicas, eles abandonaram a análise sistemática de dados, apoiada pela teoria, como um modelo para pesquisar a história econômica da região. O resultado foi a rápida ascensão e predomínio da escola de pensamento que ficou conhecida como Teoria da Dependência.
A Teoria de Dependência combinou noções Marxistas de análise de classes com uma crítica estruturalista da teoria do comércio internacional. […] A Teoria da Dependência se tornou — e continua a ser — o tema dominante na organização da maioria dos livros sobre história econômica da América Latina.
Porém, essa teoria apresenta três problemas. O primeiro é que ela utiliza um raciocínio econômico improvisado. […] O segundo problema era a rejeição da noção de que ideias devem ser submetidas à avaliação científica. […] O terceiro problema é que sua proposição central é inconsistente com os fatos empíricos."

Institutions, Institutional Change and Economic Performance

Recomendação da Prof. Carmen Migueles

Um clássico da Teoria das Instituições, que todos que querem exercer sua cidadania de maneira informada precisam ler. Um livro fino, escrito em uma linguagem acadêmica mas acessível. Douglas North é o cara. Sua teoria das instituições confirma, através de uma abordagem acadêmica, o que sempre suspeitamos: nosso país não avança devido à precariedade das instituições (Ibéricas) que herdamos. Leia para arrasar em seus debates com esquerdistas.

Olha aqui:

"Instituições são as regras do jogo em sociedade ou, mais formalmente, são as restrições criadas pelo homem que moldam as interações humanas. Como consequência, elas estruturam os incentivos nas trocas entre as pessoas, sejam as trocas políticas, sociais ou econômicas. A mudança institucional molda a forma com a qual as sociedades evoluem ao longo do tempo e são a chave para o entendimento das mudanças históricas.
Não se discute que as instituições influenciam o desempenho econômico. Não se discute também que a diferença entre o desempenho econômico entre países é influenciada pela evolução das instituições.
[…] Instituições são as fundações sobre as quais a humanidade, ao longo da história, vem construindo ordem e tentando reduzir incerteza nas trocas. Junto com a tecnologia, elas determinam os custos de transação e transformação e, portanto, a rentabilidade e viabilidade de iniciar uma atividade econômica. Elas conectam o passado com o presente […] Elas são a chave para entender o interrelacionamento entre política e economia e as consequências desse relacionamento para o crescimento (ou estagnação e declínio) econômico."

Encontrado por acaso em uma livraria

O Imbecil Coletivo


Esse foi o livro que começou a revolução na minha cabeça, lá por volta de 1994. Foi quando descobri que era possível criticar as vacas sagradas da cultura nacional. Foi quando descobri que não era só eu que achava tantas coisas absurdas na política e na cultura. É, acima de tudo, um manual de como raciocinar. Leitura obrigatória.

Olha aqui:

“Entre as causas do banditismo carioca, há uma que todo mundo conhece mas que jamais é mencionada, porque se tornou tabu: há sessenta anos os nossos escritores e artistas produzem uma cultura de idealização da malandragem, do vício e do crime […] ladrões e assassinos sã essencialmente bons ou pelo menos neutros, a polícia e as classes superiores a que ela serve são essencialmente más.
[…] O que é um assalto, um estupro, um homicídio, perto da maldade satânica que se oculta no coração de um pai de família que, educando seus filhos no respeito à lei e à ordem, ajuda a manter o status quo? O banditismo é, em suma, nessa cultura, ou o reflexo passivo e inocente de uma sociedade injusta, ou a expressão ativa de uma revolta popular fundamentalmente justa.
[…] A conexão universalmente admitida entre intenção e culpa está revogada entre nós por um atavismo marxista erigido em lei: pelo critério ‘ético’ da nossa intelectualidade, um homem é menos culpado pelos seus atos pessoais do que pelos atos da classe a que pertence”.
(*Roberto Motta é engenheiro, escritor, empresário e professor. Seus interesses são política, literatura, tecnologia, economia e tudo relacionado com o mar.)
liderança nas empresas
Por Roberto Motta*

Você já teve um chefe ruim. Ele agredia e desmoralizava seus subordinados. Sua mera presença gerava desconforto. Se sua história é parecida com a minha, a presença desse chefe era justificada por sua capacidade técnica ou conhecimento do negócio. Líderes como esse são puro veneno.


Roberto Motta
A tarefa fundamental dos líderes é criar bons sentimentos nos seus liderados, afirma Daniel Goleman em seu livro Primal Leadership, um dos melhores sobre o assunto. Essa dimensão da liderança é quase sempre ignorada. Mas ela é determinante para o sucesso ou fracasso de todas as outras coisas que o líder faz.

Pesquisas da neurociência colocam a inteligência emocional do líder no primeiro plano, e demonstram o impacto concreto de tudo o que ele faz ou diz. Esse impacto acontece tanto em questões tangíveis, como resultados financeiros e retenção de talentos, quanto em intangíveis críticos como moral, motivação e comprometimento.

O líder sem inteligência emocional aliena, desmotiva e afasta os funcionários.

Emoções negativas como raiva crônica, ansiedade e sentimento de futilidade perturbam o trabalho e sequestram a atenção dos empregados. Nem sempre as pessoas estão conscientes da influência de suas próprias emoções. Goleman conta uma história exemplar:

Em uma cadeia internacional de hotéis, dentre todas as situações que colocavam os funcionários de mau humor, a mais frequente era falar com um gerente. As interações com chefes geravam sentimentos ruins – frustração, decepção, raiva, tristeza ou nojo – em nove de cada dez vezes. Essas situações causavam mais problemas do que resolver problemas dos hóspedes, lidar com pressões de trabalho, políticas da empresa ou problemas pessoais.

É claro que líderes não precisam ser excepcionalmente camaradas. A arte emocional da liderança significa apenas lidar com a realidade das demandas do trabalho sem aborrecer as pessoas à toa. Uma das leis mais antigas da psicologia afirma que aumento de ansiedade e preocupação acima de um nível moderado corroí as habilidades mentais. O clima da organização influencia fortemente os resultados: segundo Goleman, trinta por cento dos resultados de uma empresa podem ser explicados pelo clima organizacional.

Mas o que determina o clima organizacional? Goleman responde:

A maior parte do sentimento dos funcionários a respeito da organização pode ser comprovadamente ligada às ações de uma pessoa: o líder. Mais do que qualquer outro, ele cria as condições que determinam diretamente a habilidade das pessoas de trabalharem bem.

Capacidade intelectual é pré-requisito para trazer o indivíduo até uma posição de liderança – e aí se incluem a capacidade analítica e conceitual e clareza de raciocínio. Mas apenas a inteligência não faz um líder. Líderes ganham capacidade de executar uma visão motivando, guiando, inspirando, ouvindo e persuadindo seus seguidores.

Ou, como diz Goleman:

Apesar do grande valor que a cultura empresarial dá a um intelecto vazio de emoções, nossas emoções são, em um sentido real, mais poderosas que nosso intelecto. Em momentos de emergência nossos centros emocionais – o cérebro límbico – controla todo o resto da mente.
Existe uma boa razão para o poder das emoções. Elas são críticas para a sobrevivência, são a forma que o cérebro tem de nos alertar para algo urgente e nos oferecer um plano de ação imediata: lutar, fugir, imobilizar-se. O cérebro pensante evoluiu do cérebro límbico e continua a receber ordens deste quando percebe uma ameaça ou se encontra sob estresse.

É óbvio que liderança não é o único fator crítico para o sucesso das organizações. Como diz Jim Collins, autor de Good to Great, "toda a vez que atribuímos tudo à liderança, agimos da mesma forma que as pessoas do século XV. Estamos simplesmente admitindo nossa ignorância". Mas não resta dúvida sobre o papel central da liderança na determinação da cultura e do clima organizacional, e em última instância, dos resultados das empresas.

A tarefa principal do líder é motivar.

Todo o resto vem como consequência.

Referências:

ACHOR, S. The Happiness Advantage. Random House, 2010.
CLEGG, S.; KORNBERGER, M.; PITSIS, T. Managing and Organizations. Sage Publications, 2004.
COLLINS, J. Good to Great. HarperCollins, 2001.
GOLEMAN, D. Primal Leadership. Harvard Business School Press, 2002.

(*Roberto Motta é engenheiro, escritor, empresário e professor. Seus interesses são política, literatura, tecnologia, economia e tudo relacionado com o mar.)

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